A crise do gás vem lembrar que a Rússia ainda suspira por amores pelo Pacto de Varsóvia. Desde 1991 que a Rússia treme ao gerir o seu poder geopolítico, ao fazer por manter uma rede coesa de interesses estratégicos com o Ocidente e ao assegurar uma importância decisiva no Leste Europeu que julga ainda inquebrável. No caso dos países de Leste em particular, Moscovo ainda utiliza um mapa estalinista onde inúmeros satélites de influência compõem o território. A paranóia pelo "papão ocidental" perdura e, através de confrontações robustas, a Rússia insiste em mostrar-se incomodada com nariz alheio nos seus domínios. Viu-se quando a Gazprom interrompeu o fornecimento de gás à Ucrânia e à Geórgia durante as revoluções democráticas e pró-ocidentais nos dois países, ou quando Moscovo decidiu fortalecer a cooperação militar com Caracas, respondendo ao acordo para a defesa antimíssil que a República Checa assinou com os EUA. A aproximação de antigos satélites soviéticos ao Ocidente faz-se pela garantia de protecção e segurança; do outro lado, a Rússia faz lembrar a ira da URSS de Khrushchev assim que o projecto socialista se afundou no Leste e o sistema de alianças norte-americano proliferou. Ao mesmo tempo, o xadrez em Moscovo joga-se pela vitimização, preferindo responsabilizar terceiros e fazer por manter uma imagem de bom pastor no palco internacional. O vice-presidente da Gazprom, Alexander Medvedev, transparece essa estratégia num artigo no Wall Street Journal:
«European consumers of Russian gas could be forgiven for being frustrated and bewildered by the impasse which has prevented supplies from Gazprom being delivered to them in recent days.»
«Theft is theft, whether it is gas or goods from a shop. Ukraine must put the gas back into the system. If it cannot because the gas has been consumed, then it should pay for the additional volumes they are asking us to supply.»
Por outro lado, a postura do Ocidente não ajuda. Em termos genéricos, que sentido faz hoje a NATO? Passou de instrumento - ideológico - de bloqueio eficaz a uma cooperação que cai no ridículo quando, ao mesmo tempo, lida com a Rússia de forma inquisidora e humilhante e lhe exige bom comportamento. Para que serve uma União Europeia cada vez mais condicionada por Estados-membros que privilegiam as relações que mantêm com Moscovo, afastando-se do consenso e da cooperação estratégica? Como notou Teresa de Sousa no Público, «o problema é que olhar para o lado não apaga a realidade, nem transforma a Rússia num parceiro fiável da UE, seja em matéria de gás, seja em matéria de vizinhança política e de estabilidade regional». Há que contornar divisões e solucionar fraquezas. A começar pela dependência do gás natural: se a Gazprom o utiliza como arma política e forma de intimidação, a UE não pode continuar a deixar o assunto pendente ou na mera converseta obstinada. E, nisso, Joschka Fischer não poderia ser mais certeiro:
«Due to its geopolitical position and its potential, Russia will remain a permanent strategic factor in Europe and Asia that cannot be ignored. To integrate the country into a strategic partnership is therefore in the West's interest. But this would require a Western policy based on long-term thinking and a self-confident and strong power position, because the Kremlin will perceive any sign of division and weakness as encouragement to return to Great Russian power politics.»
«European consumers of Russian gas could be forgiven for being frustrated and bewildered by the impasse which has prevented supplies from Gazprom being delivered to them in recent days.»
«Theft is theft, whether it is gas or goods from a shop. Ukraine must put the gas back into the system. If it cannot because the gas has been consumed, then it should pay for the additional volumes they are asking us to supply.»
Por outro lado, a postura do Ocidente não ajuda. Em termos genéricos, que sentido faz hoje a NATO? Passou de instrumento - ideológico - de bloqueio eficaz a uma cooperação que cai no ridículo quando, ao mesmo tempo, lida com a Rússia de forma inquisidora e humilhante e lhe exige bom comportamento. Para que serve uma União Europeia cada vez mais condicionada por Estados-membros que privilegiam as relações que mantêm com Moscovo, afastando-se do consenso e da cooperação estratégica? Como notou Teresa de Sousa no Público, «o problema é que olhar para o lado não apaga a realidade, nem transforma a Rússia num parceiro fiável da UE, seja em matéria de gás, seja em matéria de vizinhança política e de estabilidade regional». Há que contornar divisões e solucionar fraquezas. A começar pela dependência do gás natural: se a Gazprom o utiliza como arma política e forma de intimidação, a UE não pode continuar a deixar o assunto pendente ou na mera converseta obstinada. E, nisso, Joschka Fischer não poderia ser mais certeiro:
«Due to its geopolitical position and its potential, Russia will remain a permanent strategic factor in Europe and Asia that cannot be ignored. To integrate the country into a strategic partnership is therefore in the West's interest. But this would require a Western policy based on long-term thinking and a self-confident and strong power position, because the Kremlin will perceive any sign of division and weakness as encouragement to return to Great Russian power politics.»
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