A operação militar israelita na Faixa de Gaza faz lembrar o dilema do Batman. Com a visão maniqueísta tão particular dos heróis, o Batman promete limpar Gotham City; o problema é que, para isso, tem de matar. Se matar é um acto moral e legalmente condenável, o Batman põe-se de igual pé em relação aos que persegue.
Com Israel está a acontecer o mesmo, embora a maior pressão seja externa, agudizada pela comunidade internacional. Subitamente, por se ver numa conversa entre vozes que não entende, o mundo apoia um grupo que transformou um território numa ditadura militar fundamentalista e que sacrifica a sua população para ver outro território apagado dos mapas. Sabendo bem com que rapazes contar - Irão e Síria -, o Hamas repugna Israel; repugna ainda mais os palestinianos, ao correr com Mahmoud Abbas e persistir numa lógica de chacina civil para privilegiar as suas intenções. À falta de contexto, o mundo liga a TV e pasma-se com a agressividade dos ataques em Gaza. As conclusões que dali saem são óbvias. Já vem sendo hábito o fechar de olhos aos bombardeamentos sucessivos, visando alvos civis, do Hamas sobre Israel; como retaliação e como forma de garantir a sua segurança, Israel faz por destruir infra-estruturas e asfixiar a rede terrorista e, por atingir acidentalmente civis no meio de alvos militares, chovem condenações.
Como Pacheco Pereira nota no Público de hoje, «Tudo isto está mais que documentado. (...) Israel não toma a população civil como alvo militar e o Hamas não distingue entre um militar e um civil judeus, assassinando todos os que pode. (...) O Hamas viola todo o tipo de direitos humanos, fuzila opositores suspeitos de simpatizarem com a Fatah de Abbas e presumíveis ou reais informadores israelitas, impede qualquer liberdade de expressão, prende inscriminadamente e tortura». Antes de brotarem manifestações e campanhas de sensibilização mundo fora, há que fazer-se luz: a campanha israelita visa a sua própria segurança. Por agora, o sentido da coerência está invertido. Tal como quando o Batman decide tornar-se foragido.
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